6. GERAL 1.5.13

1. GENTE
2. POLCIA  QUEIMADA VIVA POR 30 REAIS
3. POLCIA  TORTURADO NA FAVELA
4. SADE  NEM DE MAIS, NEM DE MENOS
5. ESPECIAL  A BOLA VAI ROLAR
6. ESPECIAL  4, 3, 2, 1... E COMEA O ENSAIO GERAL
7. ESPECIAL  FALTAM 407 DIAS PARA A COPA DO MUNDO...
8. RELIGIO  EM BUSCA DA ESSNCIA
9. HISTRIA  SURPRESAS DO PASSADO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Alvaro Leme e Marlia Leoni

UM PEDACINHO DE NIGELLA
Ela cozinha divinamente, exibe curvas voluptuosas e tem senso de humor. A inglesa NIGELLA LAWSON seria a esposa perfeita se um milionrio no a tivesse achado antes. Vem ao Brasil para lanar o livro Na Cozinha com Nigella. Aqui, um aperitivo. 
O que  pior ficar sem manteiga, sem chocolate ou sem bacon? No me privo de nada. Seno, fico obcecada e acabo comendo ainda mais. Mas, como fao at doze receitas por dia no programa, h situaes em que peo que afastem os pratos de mim. E procuro no comer o prato todo; um desafio. 
Quantas vezes testa cada receita? Pelo menos trs. Mas economizo nos utenslios. Tem receita que vejo que s pode ter sido feita por um homem, de tanta loua suja que deixa. Eu tento usar a mesma tigela para vrias coisas. 
Quem lava a loua na sua casa? Eu, minha auxiliar e, graas a Deus, as duas mquinas de lavar que comprei.

SANGUE BEM BOM
 prprio da estrutura dos canais de televiso testar atrizes jovens, lindas e nem sempre explicitamente talentosas para que venham a se tornar protagonistas de novela num prazo de cinco a seis anos. Est no ar um exemplo de ascenso que no funcionou, o que dificilmente ser o caso de SOPHIE CHARLOTTE, 23. "Ela estuda os textos com profundidade e tem o physique du rle", elogia Maria Adelaide Amaral, a autora da nova Sangue Bom, dizendo que Sophie tem a configurao certa para o papel, o de Amora, uma aficionada de moda dona de um closet lotado. A experincia pessoal ajuda? "No tenho delrios consumistas. Compro uma coisinha aqui, outra ali", diz a atriz. Nada a ver com o conjunto de quatro aneles de 798 reais usado pela personagem.

VAI FICAR TUDO COR-DE-ROSA
 noite, ao pousar a cabea no travesseiro, o cirurgio plstico ROBERT REY ouvia a voz da conscincia: "Ei, agora que voc est milionrio,  hora de fazer algo pela sua ptria". Assim, aceitou o convite do partido do deputado Marco Feliciano e se filiou ao PSC. O mdico, criado como mrmon pelos pais adotivos americanos, caiu nas graas do pastor evanglico. "Ele tem muito pblico", avalia Feliciano. O fato de no causar nenhum espanto no universo gay tambm no  problema. "No grupinho de Jesus tinha todo mundo", diz o Doutor Hollywood, que pensa em se mudar para So Paulo em 2014. Um exemplo de projeto poltico: "Pintar o Brasil. Na Cidade do Mxico  tudo cor-de-rosa e amarelo".

FAZ UM OITO A
Para quem tem um bitipo exatamente oposto ao das funkeiras, at que a alta, esguia e nada dotada para o molejo TICIANE PINHEIRO, 36, no se saiu mal. Deitada no cho, pernas para o alto, quadris girando em fria, ela saltou de seu programa vespertino d TV para o topo das redes sociais em questo de segundos pela performance na dana do Quadradinho de 8, o funk do momento. "Olha, 99% das mensagens que recebi foram de gente que adorou minha espontaneidade. Fao televiso para o povo", diz a apresentadora. E o que o marido, Roberto Justus, achou da performance? "Adorou. Ele tem aquela imagem de homem todo srio, mas quem conhece sabe que  um piadista."

A MULHER MAIS TUDO DO PLANETA
Motivos para a atriz GWYNETH PALTROW aparecer no topo da lista famosa de uma revista como a mulher mais bela do planeta: ter um patrimnio gentico espetacular, cuidar dele com duas horas de malhao por dia, seguir um radical regime macrobitico e fazer uns retoquezinhos de manuteno. Motivos para encabear outra lista, a de celebridade mais odiada: ditar regras de beleza e alimentao, passar uma imagem de simpatia fabricada, dar a impresso de que se esfora demais. E ainda por cima, aos 40 anos, desfilar com um vestido provocantemente transparente nas laterais, mostrando que  perfeita nos mais recnditos detalhes. E no dia seguinte fingir que tudo foi meio assim, sem querer, quase por acaso.


2. POLCIA  QUEIMADA VIVA POR 30 REAIS
A dentista Cinthya de Souza tinha um saldo baixo na conta: foi motivo suficiente para os bandidos atearem fogo nela.
LAURA DINIZ

     Na semana que passou, o Brasil presenciou mais um desses crimes que reverberam por muito tempo na memria. A dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, de 47 anos, foi queimada viva por criminosos, dentro de seu consultrio, pouco depois do meio-dia da quinta-feira. A barbaridade do crime  ainda mais revoltante quando se analisa a banalidade que levou os bandidos a atear fogo na vtima: eles estavam insatisfeitos porque haviam conseguido sacar apenas 30 reais da conta bancria dela. 
     Cinthya tinha um pequeno consultrio nos fundos da casa onde morava com os pais e uma irm deficiente, em um bairro pobre de So Bernardo do Campo, na Grande So Paulo. Ali, atendia basicamente amigos e vizinhos e, muitas vezes, nem cobrava pelas consultas. No dia do crime, no era nem para estar ali. Costumava levar a irm deficiente  escola, s 11 horas. Mas naquele dia ficou para tratar uma amiga, a quem atendia quando a campainha tocou. Havia trs homens na porta e um deles disse que precisava de uma consulta. Quando ela abriu, anunciaram o assalto e renderam as duas. A dentista no tinha dinheiro na carteira. Avisou que sua conta tambm estava vazia. Mesmo assim, dois ladres pegaram seu carto e foram sacar dinheiro em um caixa eletrnico, em um posto de combustvel, enquanto o terceiro vigiava as vtimas. Na volta, sabe-se l movidos por que instinto animal, jogaram o lcool do consultrio, usado para esterilizar os instrumentos, sobre a dentista e atearam fogo nela. A paciente, vendada em outra sala, ainda ouviu os apelos de "no faam isso", mas nada pde fazer. A mulher morreu em menos de trs minutos, consumida pelas chamas. O pai, o aposentado Viriato Gomes de Souza, tinha ido levar a outra filha com a mulher e chegou pouco depois. Viu a confuso em frente de casa e entrou, "Ela j estava sem vida. O sof ainda estava em chamas." 
     Um dos criminosos j foi identificado, e h pistas sobre os outros dois. As cmeras de segurana do posto gravaram Jonatas Cassiano, de 21 anos, indo sacar os 30 reais. Ele foi reconhecido por um vizinho, que avisou a polcia. Os investigadores ento foram at a casa da me de Jonatas, que, depois de muito relutar, confirmou que era, sim, o seu filho quem aparecia no vdeo. O carro em que os criminosos fugiram, um Audi A3 preto, estava em nome da me  e j tinha sido utilizado em ao menos mais dois assaltos, a outro consultrio e a uma casa. 
     Casos de grande repercusso como esse costumam ter um desfecho rpido. Os criminosos acabam presos, mas a dor da famlia no cessa. "Ela era nosso brao forte. Ajudava nas despesas, nos levava ao mdico, cuidava da irm. Agora temos de seguir em frente porque nossa outra filha precisa de ns", diz o pai da dentista. 
     Quem l as pginas policiais tem a percepo de que o pas atravessa uma onda de crimes brbaros. No ltimo ms, um jovem foi assassinado com um tiro na cabea, mesmo depois de ter entregado seu celular, sem reagir, e uma turista americana foi estuprada por horas numa van no Rio de Janeiro. Como chegamos a isso? "Nosso sistema de punies brandas fortalece a disposio dos bandidos para praticar crimes sem se preocupar com quaisquer limites. Criminosos no podem se sentir acima do bem e do mal, porque isso pe em xeque o prprio sistema de Justia e encoraja outros bandidos a fazer o mesmo", diz o promotor de Justia Roberto Livianu. At quando? 


3. POLCIA  TORTURADO NA FAVELA
Jogador do Vasco cai nas garras de Chefo do crime.

     A barbrie faz parte da vida cotidiana do Complexo da Mar, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, encravado bem na entrada da cidade. Muitas vezes, ningum fica sabendo da selvageria, mas, na semana passada, um desses episdios veio  luz por ter como alvo um nome famoso: o atacante do Vasco Bernardo Souza, 22 anos. No domingo 21, ele foi ao baile funk da favela acompanhado do jogador Charles Silva, do Palmeiras, nascido e criado nas bandas da Mar. No meio da festa, Bernardo recebeu um recado: Marcelo Santos das Dores, o "Menor P", chefo da bandidagem no complexo, queria falar com ele, e era coisa urgente. "Voc precisa ir l desenrolar uma parada de vocs", ouviu de um dos comparsas do marginal. Na rua, percebeu tratar-se de uma emboscada. Com uma arma apontada contra a cabea, foi capturado e levado para o alto do morro. Para l tambm seria conduzida Dayana Rodrigues, 23 anos, namorada de Menor P. Eles sabiam do que estavam sendo vtimas: o chefe do morro havia descoberto um caso entre os dois  
     O castigo que se seguiu foi uma sesso de tortura com choques eltricos  vista de todos. Bernardo e Dayana foram obrigados a ficar nus e a confessar o caso. A moa foi alvejada com cinco tiros nas pernas e dois no p esquerdo. Segundo o relato de moradores, o jogador teve o corpo envolvido com fita crepe, procedimento que em geral antecede a queima da vtima ainda viva. O chefo, no entanto, no deu a ordem para queimar o jogador. A polcia abriu inqurito sobre a agresso e tem informaes de que outro jogador, Wellington Silva, do Fluminense, tambm egresso da Mar, teria ligado para Menor P para salvar o amigo, argumentando: "Se vocs matarem o Bernardo, a polcia invade o morro". Wellington nega. Bernardo contou a histria  diretoria do Vasco. Apavorado, no apareceu para depor na ltima sexta. No Twitter, preferiu dizer que nada houve. "Estou bem", escreveu. 
LESLIE LEITO


4. SADE  NEM DE MAIS, NEM DE MENOS
Muito iodo no sal faz mal. Pouco tambm. A Anvisa reduz o teor do micronutriente no sal de cozinha para tentar controlar a incidncia das doenas da tireoide no Brasil.
NATALIA CUMINALE

     Desde a dcada de 50,  obrigatria no Brasil a adio de iodo ao sal de cozinha. A medida tem por objetivo o controle das doenas associadas  carncia do mineral, especialmente o bcio, distrbio responsvel pelo mau funcionamento da glndula tireoide. A estratgia funcionou. Entre 1955 e 2000, o nmero de doentes se reduziu drasticamente. Caiu de 20,7% para 1,4%. Agora, a Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria (Anvisa) decidiu diminuir o teor do micronutriente no sal, o que deve acontecer em noventa dias. Com base em pesquisas do incio dos anos 2000, os tcnicos do Ministrio da Sade argumentam que os brasileiros esto consumindo iodo demais. Em excesso, o mineral pode levar  tireoidite de Hashimoto, doena autoimune associada ao hipotireoidismo. Comum em mulheres a partir dos 35 anos, ela afeta entre 3% e 7% das brasileiras. 
     Atualmente, o volume de iodo varia de 20 a 60 miligramas por quilo de sal. A deciso da Anvisa estipula os novos parmetros em 15 a 45 miligramas (veja o quadro na pg. ao lado). Na prtica, isso significa 14% a menos de iodo, em mdia, todos os dias na dieta do brasileiro. Ainda assim,  quase o triplo da quantidade preconizada pela Organizao Mundial de Sade (OMS). No h dados que meam o impacto dessa reduo na incidncia da tireoidite de Hashimoto. Mas os especialistas ouvidos por VEJA aprovam a iniciativa. A nica advertncia se d em relao as grvidas. Diz Nina Musolino, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia  (SBEM): "Durante a gestao, as mulheres j so incentivadas a consumir menos sal, devido ao risco de hipertenso. Agora, com a medida da Anvisa, a ingesto de iodo tende a ficar abaixo do recomendado. Os mdicos devero incluir o iodo na lista de suplementos j recomendados". A falta do mineral durante a gravidez pode levar ao desenvolvimento inadequado do sistema nervoso central do feto. 
     No  a primeira vez que o Brasil altera a concentrao de iodo no sal de cozinha. Entre 1998 e 2003, por exemplo, o limite mximo permitido chegava a 100 miligramas por quilo do alimento. Isso, sim, era um exagero. Em apenas cinco anos, o nmero de portadores da tireoidite de Hashimoto aumentou de 7% para inacreditveis 19%. 
     O ideal  que, periodicamente, de cinco em cinco anos, sejam realizadas pesquisas para avaliar o consumo de iodo pela populao. Isso porque o micronutriente  extremamente sensvel  ao de uma srie de fatores externos. Do processo de iodao  maneira pela qual o sal  empacotado, transportado e estocado, muitas variantes podem alterar a concentrao do mineral no alimento. O solo tambm exerce influncia. Frutas, legumes e vegetais plantados prximo ao mar so mais ricos em iodo do que os alimentos provenientes do interior. Quem tem uma alimentao rica em peixes de gua salgada tende a ter mais iodo circulando pelo organismo do que quem gosta mesmo  de um bom churrasco. At o modo de preparo dos alimentos pode modificar o teor de iodo encontrado no sal. O calor, por exemplo, chega a reduzir em at 20% essa concentrao. Deixar o sal perto do fogo tambm faz com que parte do micronutriente desaparea; H que levar em considerao ainda as perdas ocorridas no processo de absoro do mineral pelo organismo. Ingerido o sal, o iodo cai na corrente sangunea e se espalha pelo organismo. Na glndula tireoide, ele  usado na sntese dos hormnios T3 e T4, envolvidos no controle do ritmo metablico e essenciais ao bom funcionamento do organismo. O que no  utilizado pela tireoide  metabolizado no fgado e depois excretado. Nesse trajeto, chega-se a eliminar at 30% do iodo ingerido sob a forma de sal. 
     O iodo foi descoberto acidentalmente, em 1811, pelo qumico francs Bernard Courtois (1777-1838). Trabalhando para o exrcito de Napoleo, ele era responsvel pela fabricao de salitre, matria-prima da plvora. Certa vez, Courtois exagerou no cido sulfrico e, ao despej-lo sobre um amontoado de cinzas de alga marinha, formou-se uma imensa nuvem roxa da mistura. O vapor se cristalizou sobre as superfcies frias de seu laboratrio. Era iodo, do grego iodes, que significa violeta. A importncia do mineral para a sade, no entanto, s seria atestada em 1922. 
     O brasileiro consome muito iodo por uma razo simples: ns exageramos no saleiro e nas comidas industrializadas. Atualmente, o consumo de sal gira em torno de 12 gramas dirios, quando o recomendado so apenas 5. Desde 1998, o padro de consumo de sal de cozinha  pelas famlias brasileiras manteve-se entre 8,5 e 9,4 gramas. "O que mudou brutalmente foi a ingesto diria de sal por intermdio da comida industrializada, que passou de 1,5 grama para quase 4 gramas", diz o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor snior da Universidade de So Paulo (USP) e a grande autoridade brasileira no assunto. Um prato de sopa pronta ou um pacote de macarro instantneo j contm a quantidade mxima recomendada de sal por dia. Se o abuso do alimento estivesse relacionado apenas ao exagero de iodo, a nova medida da Anvisa resolveria o problema. Mas no. Principal componente do sal, o sdio est relacionado  hipertenso, fator de risco para infartos e derrames. Uma reduo de apenas 1 grama de sal todos os dias evita 10% das mortes por doenas cardiovasculares, o que representa, em termos globais, em torno de 1 milho de vidas salvas anualmente. Ou seja, independentemente da determinao da Anvisa, a medida mais efetiva em nome da boa sade  ficar longe do saleiro.

O QUE MUDA
Com base em estudos do incio dos anos 2000, que indicavam uma concentrao quase duas vezes maior de iodo no organismo dos brasileiros, a Anvisa decidiu diminuir em 14%, em mdia, o teor do micronutriente no sal. Apesar da reduo, a quantidade de iodo consumida no pas continuar acima dos valores preconizados pela Organizao Mundial de Sade (OMS). Novas alteraes s devem ocorrer depois de pesquisas mais atualizadas sobre o assunto.

ATUALMENTE 35 miligramas de iodo, em mdia, por quilo de sal.
DAQUI A 90 DIAS 30 miligramas de iodo, em mdia
COM ISSO Ingerindo-se 12 gramas dirias de sal, o consumo mdio de iodo no Brasil ser de 0,36 miligrama (cerca de 180% acima do preconizado pela OMS).


5. ESPECIAL  A BOLA VAI ROLAR
Glorioso palco de lances memorveis que fizeram a histria do futebol brasileiro, o Maracan reabre seus portes depois de uma reforma que durou trs anos.
GABRIELE JIMENEZ E LESLIE LEITO

     Muitos dolos e muitos gramados fazem do Brasil o pas do futebol, mas s dois so unanimidade aqui e l fora. Um, claro,  Pele. O outro  o Maracan, por dcadas o maior estdio do mundo, palco de partidas memorveis, objeto de aspirao coletiva  que torcedor, de qualquer time, nunca sonhou ver um Fla-Flu no Maraca? Fechado para reforma, o estdio d 63 anos que virou carto-postal do Rio de Janeiro passou os ltimos 965 dias sendo submetido a um choque de renovao particularmente complicado pelo esforo de manter, na medida do possvel, suas caractersticas originais. Neste sbado, 27, quatro adiamentos na previso de entrega e duas greves de operrios depois, o Maracan  ou Jornalista Mrio Filho, seu nome de batismo  reabre os portes, tinindo de novo (cheira ainda a tinta, passada nas paredes at os ltimos instantes, e deixa  mostra alguns acabamentos por fazer). A reforma, como  de praxe, custou muito mais do que o previsto: beira oficialmente 1 bilho de reais, 35% a mais do que o anunciado em 2009, antes do incio das obras. Quando a conta fechar, dever chegar a 1,2 bilho de reais, o que  como mostra o balano dos preparativos em cada cidade-sede que acompanha esta reportagem  far dele o segundo estdio mais caro dos doze da Copa do Mundo de 2014, atrs apenas do Nacional, de Braslia. 
     O Maracan que reabre agora  muito mais confortvel do que aquele inaugurado em 16 de junho de 1950  e que um ms depois mergulharia, na expresso de Nelson Rodrigues, num silncio ensurdecedor diante da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo. Na poca o pblico no era contado, mas calcula-se que mais de 200.000 pessoas se espremiam nas arquibancadas, em esfuziante confuso. O recorde oficial  183.341 pessoas  foi registrado em 31 de agosto de 1969, quando o Brasil venceu o Paraguai nas eliminatrias da Copa de 1970 com gente sentada de lado, no colo e entre as pernas dos amigos para fazer caber todo mundo. Em 1992, na final do Campeonato Brasileiro, a superlotao provocou sua maior tragdia: uma grade cedeu na arquibancada, trs pessoas morreram e noventa ficaram feridas. Renovado, o Maracan agora tem 78.838 cadeiras plsticas numeradas sem um nico  ponto cego (antes havia 1872), e a distncia da primeira fila  linha do campo encolheu de 38 para 14 metros, o que coloca o torcedor praticamente cara a cara com seus dolos. 
     Por se tratarem de patrimnio histrico, a altura, a largura e a estrutura externa do estdio no puderam ser alteradas, um desafio para a engenharia. "Analisando friamente, seria mais fcil demolir tudo e comear do zero", diz o engenheiro caro Moreno, presidente da Empresa de Obras Pblicas do Rio de Janeiro. Dentro de suas limitaes, a reforma aumentou a rea construda em 40.000 metros quadrados e adicionou escadas rolantes (de seis para doze) e elevadores (de cinco para dezesseis). O sistema de som ganhou 3860 alto-falantes internos e 78 externos, e quatro teles de 100 metros quadrados vo mostrar detalhes dos lances no gramado. Este, alis, recebeu tratamento vip: a grama (da variedade Bermuda celebration, mais fina, para a bola rolar suavemente) foi cultivada em um stio alugado s para esse fim em Saquarema, a 100 quilmetros do Rio, e depois transportada em rolos at o estdio. 
     O item que mais fez estourar o oramento foi a cobertura de membrana de fibra de vidro revestida de teflon. O plano inicial era manter a estrutura original, de concreto, que pesava 15.000 toneladas. Mas estudos indicaram o risco de desabamento devido  corroso das vigas de ferro e optou-se por substitu-la. O governo gastou 12 milhes para remover a velha cobertura e 252,4 milhes de reais na compra e instalao da nova. Projetada na Alemanha, fabricada nos Estados Unidos e cortada na Tailndia, a membrana  composta de material desenvolvido pela Nasa e pesa 11.000 toneladas a menos que a cobertura anterior. Com ela, apenas 5% dos assentos ficam descobertos, o que, por incrvel que parea, desagradou aos mais nostlgicos. "Um senhor de 90 anos pediu para visitar a obra e at chorou quando viu que no ia mais tomar chuva. Disse que no seria a mesma coisa", conta Moreno. A presso de tocar o projeto, alis  Todos do palpite, do governador ao farmacutico" , fez com que, h trs meses, o engenheiro de 57 anos fosse parar no hospital, com uma crise de stress. Agora, ele acompanha a reta final da reforma  base de calmante  
     Tambm teve trabalho intenso no Maracan. O GT Copa, grupo formado pelo Ministrio Pblico Federal, pela Controladoria-Geral da Unio e pelo Tribunal de Contas da Unio para fiscalizar oramentos e tentar evitar o superfaturamento nas obras da Copa do Mundo. Exemplos de abusos detectados e corrigidos a tempo no caso do Maracan: uma encomenda de 495 portes foi reduzida para apenas cinco, economizando 12 milhes de reais; o preo dos 138 trocadores de fraldas caiu de 10.700 reais a unidade (isso mesmo) para 905 reais, poupando mais de 1 milho de reais. No total, foram cortados 97 milhes do oramento do Maracan. Em contrapartida, 92 milhes de reais em aditivos foram aprovados na reta final, embora ainda no apaream no oramento oficial. Um n por desatar envolve o consrcio que vai administrar o estdio nos prximos 35 anos: um dos grupos concorrentes, liderado pela Odebrecht, inclui a IMX de Eike Batista, justamente quem produziu o estudo de viabilidade que embasou as regras da licitao  conflito de interesses que est na mira do Ministrio Pblico. Mas, quando soar o apito inicial da partida de sessenta minutos entre amigos dos ex-jogadores Ronaldo e Bebeto que abre a srie de jogos-teste antes da prova de fogo  a final da Copa das Confederaes , o sentimento dos torcedores ser, com certeza, de pura alegria: a bola, enfim, volta a rolar no gramado de seu templo maior.

ESTDIO: JORNALISTA MRIO FILHO (MARACAN)
Capacidade: 79.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 705 milhes
Final: 951 milhes
Aumento de 34,8%
Status: PRONTO

O RIO NA COPA
MOBILIDADE URBANA
Custo: 1,9 bilho de reais
Principal obra: corredor exclusivo de nibus entre a Barra da Tijuca e o Aeroporto Antnio Carlos Jobim.
Incio: maro de 2011.
Previso de trmino: fevereiro de 2014
Status: 48% concludos 

AEROPORTO
Custo: 844,7 milhes
Previso d trmino: abril de 2014.
Principais obras: reforma de terminais de passageiros e revitalizao de pistas e ptios
Incio: 2011
Status: 30% concludos
Taxa de ocupao em 2010: 68%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 68,9%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 45.000
Recomendao para 2014: 23.700
Previso: 53.300

MONUMENTO NACIONAL
Ao longo de sua histria, o Maracan registrou momentos sublimes de glria  e uma derrota dramtica.

O FIM DO MUNDO - 16 de julho de 1950: O maior estdio do planeta acabara de ser inaugurado, o Brasil sediava a Copa, estava na final contra o Uruguai e era o favorito. Diante de 200.000 torcedores, aconteceu o impossvel: perdeu por 2 a 1. O jogo entrou para a histria como Maracanazzo.

O NMERO 1000 - 19 de novembro de 1969: Ao marcar seu milsimo gol, contra o Vasco, Pele reinava havia uma dcada no Maracan. Foi l que, em 1961, driblou todo o time do Fluminense no lance excepcional que originou o termo "gol de placa".

A PRIMEIRA INVASO  5 de dezembro de 1976: Cerca de 70 000 corintianos baixaram no estdio, empurrando o time para o empate de 1 a 1 com o Fluminense que o classificou para a final do Brasileiro. Em 2000, na final do Mundial da Fifa, o Corinthians voltaria a invadir e a ganhar, dessa vez do Vasco.

O TERROR DOS GOLEIROS  16 de fevereiro de 1968: Maior artilheiro do Maracan, com 333 gols, Zico brilhou naquela tarde, que marcou seu retorno triunfal aos gramados aps uma grave leso no joelho. Com trs gols, ele comandou a goleada de 4 a 1 no Fla-Flu, numa das maiores atuaes de sua carreira.

RUMO AO TETRA  19 de setembro de 1993: Em uma atuao pica, o at ento preterido Romano fez os dois gols da vitria do Brasil (2 a 0) sobre o Uruguai, exorcizando o fantasma de 1950 e classificando o pas para a Copa de 1994, em que se sagrou tetracampeo.


6. ESPECIAL  4, 3, 2, 1... E COMEA O ENSAIO GERAL
O Brasil entra na contagem regressiva para a Copa das Confederaes, o primeiro grande teste para os megaeventos que o pas sediar nos prximos anos.

     O pontap inicial de Brasil x Japo, jogo de abertura da Copa das Confederaes, no dia 15 de junho, no Estdio Nacional de Braslia, dar a largada a uma monumental operao que servir de ensaio geral para os megaeventos que o Brasil sediar nos prximos tempos. O campeonato em que oito selees vo se enfrentar em seis cidades brasileiras impe, ainda que em escala mais modesta, desafios semelhantes aos que esto por vir na j to prxima Copa do Mundo de 2014 (quando, a essas seis, se somaro outras seis cidades). A prpria Fifa encara o atual torneio como um grande (e dispendioso) treino  tanto para as selees como para o pas sede. Foi assim com a Alemanha, que organizou a Copa das Confederaes em 2005 e a Copa do Mundo em 2006, e com a frica do Sul, que percorreu essa mesma trilha entre 2009 e 2010. 
     A primeira fase do teste j est praticamente encerrada, e o Brasil passou. No sufoco, mas passou: os seis estdios esto prontos, ou quase, para receber os jogos. Uma reportagem especial de VEJA em julho de 2011 registrava que o cronograma de obras de estdios como o Nacional, de Braslia, o Mineiro, de Belo Horizonte, e a Arena Fonte Nova, de Salvador, estava sendo cumprido arisca, mas sinalizava atrasos no Maracan, na Arena Pernambuco, de Recife, e no Castelo, de Fortaleza. Ao longo dos meses seguintes, o Castelo recuperou o ritmo e acabou sendo inaugurado primeiro; j Braslia se enredou em problemas e agora corre para aprontar tudo nos ltimos instantes. Em certos casos, a megalomania inicial, perodo em que grandiosos projetos para as cidades sede eram riscados nas pranchetas  profuso, cedeu lugar  realidade bem mais dura. Muitos j foram redimensionados  ou cancelados. Mesmo assim, vrios ainda esto emperrados, como enfatizam as fichas a seguir, que lanam alguns pontos de interrogao para 2014. 
     Um balano do custo das obras mostra que em quase todos os casos ele se elevou  s vezes, absurdamente. O total de gastos com os doze estdios est em torno dos 7,5 bilhes de reais, 1,5 bilho a mais do que o previsto. Podia ser pior. Tcnicos do Tribunal de Contas da Unio (TCU) fiscalizam desde 2009 todos os contratos das duas copas envolvendo dinheiro pblico, e assim impediram gastos desnecessrios no valor de 600 milhes de reais  nas palavras do ministro Valmir Campelo, "um trabalho preventivo, educativo, para evitar irregularidades antes da sua consumao". Que essa lio e as outras que a Copa das Confederaes trar sirvam de legado para os megaeventos que esto por vir.

BRASLIA
s vsperas da abertura da Copa das Confederaes, Braslia vive emoes fortes, e isso no tem nada a ver com a partida Brasil x Japo, marcada para 15 de junho. A cidade corre, isto sim, para fazer os ajustes finais no Estdio Nacional (que todo mundo insiste em chamar de Man Garrincha, apesar do veto da Fifa, por questes burocrticas), onde o jogo vai acontecer. Falta ainda colocar metade dos assentos e o gramado. Ningum d uma explicao razovel para o atraso na reforma da arena erguida em 1974. Adiada trs vezes, a inaugurao agora est prometida para 18 de maio. O difcil ser encher o estdio, com capacidade para 71.000 pessoas: a final do Campeonato Brasiliense de 2012 registrou exatos 970 torcedores pagantes.

ESTDIO: NACIONAL
Capacidade: 71.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto> 696 milhes
Final: 1,3 bilho
Amento de 86,8%
Status; entrega prevista para maio

MOBILIDADE URBANA
Custo: 103 milhes de reais
Principal obra: corredor exclusivo para nibus do aeroporto ao centro
Incio: janeiro de 2013
Previso de trmino: junho de 2014
Status: em fase inicial

AEROPORTO
Custo: 750 milhes de reais
Principais obras: novo ptio, reforma dos terminais e ampliao dos estacionamentos
Incio: outubro de 2012
Previso de trmino: junho de 2014
Status: em fase inicial
Taxa de ocupao em 2010: 141%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 115%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 51.000
Recomendao para 2014: 23.600
Previso: 53.000

BELO
HORIZONTE
Com o Mineiro tinindo e o cronograma de obras (uma raridade) em dia, Belo Horizonte tinha no setor hoteleiro seu calcanhar de aquiles  como VEJA registrou em sua edio de julho de 2011. Das menos de 20.000 acomodaes existentes, 5.000 foram descartadas da lista de ofertas para a Copa do Mundo por ser consideradas simples demais. Mas nesses quase dois anos a situao se reverteu: o nmero total de leitos saltou mais de 160%, para os atuais 48.000. E o ritmo no arrefece. Um novo cinco-estrelas e mais treze quatro-estrelas devem ser inaugurados ainda neste ano. A preocupao agora,  outra: passada a Copa, quem vai ocupar tantos quartos?

ESTDIO: GOVERNADOR MAGALHES PINTO (MINEIRO)
Capacidade: 64.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 426 milhes
Final: 695 milhes
Aumento de 63,1%
Status: PRONTO

MOBILIDADE URBANA
Custo: 1,4 bilho de reais
Principal obra: corredor exclusivo para nibus ligando o aeroporto ao centro e ao estdio
Incio: junho de 2010
Previso de trmino: novembro de 2013
Status: 64% construdos

AEROPORTO
custo: 509 milhes de reais
Principais obras: ampliao do terminal de passageiros e melhorias no acesso ao aeroporto
Incio: setembro de 2011
Previso de trmino: dezembro de 2013
Status: 25% construdos
Taxa de ocupao em 2010: 145%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 125%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 48.000
Recomendao para 2014: 21.400
Previso: 71.000


SALVADOR
O maior legado urbano da Copa do Mundo para Salvador, cidade onde as melhorias de trnsito e infraestrutura prometidas foram minguando, minguando, at quase desaparecer, vai decretar o fim de uma piada pronta. Isso, claro, se acontecer de verdade. Depois de cancelarem de vez o corredor para nibus que cortaria a cidade  a obra mais ambiciosa do projeto riscado para a Copa de 2014 , as autoridades prometem que a Linha 1 do metro soteropolitano, exatos 6,6 quilmetros que esto sendo construdos desde 2000 (isso mesmo, ha treze anos), vai ser enfim inaugurada. Uma das estaes fica a 700 metros da Arena Fonte Nova, o que facilitar o acesso do pblico. A prefeitura, no entanto, no vai colher os duvidosos louros. O governo estadual encampou a obra e garante que no s vai pr a Linha 1 para finalmente funcionar como construir mais uma nos prximos anos. A populao, ressabiada, espera para ver.

ESTDIO: ARENA FONTE NOVA
Capacidade: 55.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 591 milhes
Final: 689 milhes
Aumento de 16,6%
Status: PRONTO

MOBILIDADE URBANA
Custo: 19,6 milhes de reais
Principal obra: melhorias no acesso ao entorno do estdio
Incio: janeiro de 2012
Previso de trmino: abril de 2013
Status: 90%

AEROPORTO
custo: 140 milhes de reais
Principal obra: reforma do terminal de passageiros,
Incio: janeiro de 2013
Previso de trmino: janeiro de 2014
Status: 7% construdos
Taxa de ocupao em 2010: 72%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 105%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 54.000
Recomendao para 2014: 18.400
Previso: 59.000

RECIFE
A capital pernambucana ser uma das mais solicitadas nas duas copas que o Brasil vai sediar. Na Copa das Confederaes, receber trs jogos. Entre eles, Espanha x Uruguai, um dos mais aguardados da primeira fase da competio. Na Copa do Mundo, a Arena Pernambuco ser palco de outras cinco partidas. Exemplo de cronograma bem executado, seu estdio, que fica na verdade em So Loureno da Mata, a 19 quilmetros do centro do Recife, est quase pronto, e as obras virias no entorno, que incluem uma estao de metro e um terminal de nibus prximo  arena, devem ser concludas a tempo ainda da Copa das Confederaes. O nico temor entre os que acompanham o cronograma  no haver acomodaes em nmero suficiente para alojar todo mundo na Copa de 2014. Nesse caso, o plano  acionar navios transatlnticos para ser usados como hotis provisrios.

ESTDIO: ARENA PERNAMBUCO
Capacidade: 46.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 530 milhes
Final: 532 milhes
Aumento de 0,39% 
Status: entrega prevista para maio.

MOBILIDADE URBANA
Custo: 841 milhes de reais
Principal obra: via alternativa de acesso ao setor hoteleiro
Incio: abril de 2011
Previso de trmino: abril de 2014
Status: 50% construdos

AEROPORTO
Custo: 19,8 milhes de reais
Principal obra: construo da nova torre de controle
Incio: no comeou
Status: em licitao
Taxa de ocupao em 2010: 74%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 108,6%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 11.470
Recomendao para 2014: 15.300
Previso: 17.500

FORTALEZA
O estdio de Fortaleza, o Arena Castelo, foi o primeiro a ser reinaugurado para a Copa das Confederaes, mas as outras obras se arrastam h muito tempo. S no comeo deste ano a prefeitura acordou e decidiu acelerar o passo. Na Copa das Confederaes, a cidade estar ainda tomada de tapumes coloridos que tornam invisveis as obras inacabadas. O principal projeto s sair do papel bem depois. Em 2014, h promessa de inaugurao do mais ambicioso de todos: uma linha de veculo leve sobre trilhos (VLT) entre o centro e o setor hoteleiro. Sorte dos fortalezenses  o VLT foi estreia no plano de outras cidades da Copa, mas a maioria no conseguiu tir-lo do papel.

ESTDIO: CASTELO
Capacidade: 64.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 623 milhes 
Final: 518 milhes
Reduo de 16,8%
Status: PRONTO

MOBILIDADE URBANA
Custo: 562 milhes de reais
Principal obra: sistema de veculo leve sobre trilhos (VLT)
Incio: abril de 2012
Previso de trmino: maro de 2014
Status: 30% construdos

AEROPORTO
custo: 196 milhes de reais
Principal obra: ampliao do terminal de passageiros
Incio: junho de 2012
Previso de trmino: maro de 2014
Status: 12% concludos
Taxa de ocupao em 2010: 169%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 124%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 26.370
Recomendao para 2014: 21.300
Previso: 26.370

COM REPORTAGEM DE ADRIANO CEOLIN, ALEXANDRE SALVADOR, ANDR ELER, HELENA BORGES, KALLEO COURA E MARCELO SPERANDIO


7. ESPECIAL  FALTAM 407 DIAS PARA A COPA DO MUNDO...
...e a maior parte das obras est atrasada ou nem saiu do papel. Entre os seis estdios com entrega prometida para 2014, s um, o de So Paulo, est dentro do prazo.

SO PAULO
A construo do Itaquero, a princpio emperrada pelas controvrsias entre o Corinthians e o consrcio responsvel, deve mesmo ser concluda em dezembro. A maior preocupao recai sobre os aeroportos: a concesso  iniciativa privada, que s ocorreu em 2012, atrasou o cronograma. Agora, as concessionrias aceleram o ritmo. Se no cumprirem os prazos, pagaro multas pesadas.

ESTDIO: ARENA CORINTHIANS
Capacidade: 65.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 820 milhes
Final (estimado): 820 milhes
NO PRAZO 73% construdos

MOBILIDADE URBANA
Custo: 478 milhes de reais
Principal obra: ampliao da rede viria no entorno do estdio
Incio: setembro de 2012
Previso de trmino: abril de 2014
Status: 21% construdos

AEROPORTOS
GUARULHOS
custo: 3 bilhes de reais
Principais obras: novo terminal de passageiros, edifcio-garagem e ampliao de pista e ptio
Incio: maio de 2011
Previso de trmino: maro de 2014
Status: 60%
Taxa de ocupao em 2010: 130%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 112%

VIRACOPOS (CAMPINAS)
custo: 2,6 bilhes de reais
Principais obras: novo terminal de passageiros, edifcio-garagem, ampliao de pistas e reforma dos acessos
Incio: agosto de 2012
Previso de trmino: maio de 2014
Status: 20%
Taxa de ocupao em 2010: 143%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 67%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 105.000
Recomendao para 2014: 21.600
Previso: 105.000

NATAL
Sob suspeita de irregularidades, a primeira licitao para a construo do Arena das Dunas foi suspensa pelo Ministrio Pblico. Custou para aparecer uma empresa interessada no consrcio com a prefeitura, da o grande atraso. A morosidade em todas as reas  o infeliz retrato da completa falta de planejamento.

ESTDIO: JOO CLUDIO VASCONCELOS MACHADO
Capacidade: 42.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 350 milhes
Final (estimado): 417 milhes
Aumento de 19,1%
ATRASADO 61% construdos

AEROPORTOS
SO GONALO DO AMARANTE
custo: 577 milhes de reais
Principal obra: construo do aeroporto
Incio: maro de 2012
Previso de trmino: abril de 2014
Status: 25% construdos
Taxa de ocupao prevista para 2014: ainda no calculada
AUGUSTO SEVERO
custo: 16,4 milhes de reais
Principal obra: ampliao do terminal de passageiros
Incio: fevereiro de 2011
Trmino: agosto de 2012
Taxa de ocupao em 2010: 127%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 186%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 38.000
Recomendao para 2014: 14.000
Previso: 43.000

CUIAB
Quase tudo anda fora do prazo em Cuiab, onde uma das duas empreiteiras que constroem a Arena Pantanal abandonou o consrcio. O estdio deve ter pouco uso depois da Copa  a cidade no prima pela tradio no futebol, tampouco possui um grande time. Para surpresa geral, os cuiabanos vo bem justamente onde a maioria patina: nas obras virias  uma delas  um moderno sistema de veculo leve sobre trilhos, previsto para ficar pronto em 2014.

JOS FRAGELLI (ARENA PANTANAL)
Capacidade: 43.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 454 milhes
Final (estimado): 519 milhes
Aumento de 14,3%
ATRASADO 62% construdos

MOBILIDADE URBANA
Custo: 1,6 bilho de reais
Principal obra: veculo leve sobre trilhos (VLT), ligando o aeroporto ao centro
Incio: agosto de 2012
Previso de trmino: maio de 2014
Status: 30% construdos

AEROPORTO
Custo: 90 milhes de reais
Principal obra: ampliao do terminal de passageiros e do estacionamento
Incio: abril de 2012
Previso determino: maro de 2014
Status: 10% construdos
Taxa de ocupao em 2010: 133%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 111%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 14.000
Recomendao para 2014: 14.300
Previso: 18.000

MANAUS
Ao que tudo indica, o alardeado legado da Copa do Mundo pouco efeito ter em Manaus  situao que j se anunciava dois anos atrs, na reportagem de VEJA sobre o rumo das obras. Desde ento, quase nada aconteceu: os grandes projetos continuam empacados. A Arena Amaznia, que receber quatro jogos da primeira fase da Copa do Mundo e chegou a ter os emprstimos federais bloqueados devido  identificao de sobrepreo, deve ser entregue em dezembro de 2013.  candidatssima a virar elefante branco.

ARENA AMAZNICA
Capacidade: 44.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 515 milhes
Final (estimado): 585 milhes
Aumento de 13,6%
MUITO ATRASADO 57% construdos

PORTO ALEGRE
O fato de ter um dos trs nicos estdios inteiramente privados da Copa do Mundo de 2014 no deu a Porto Alegre um projeto imune a atrasos. A reforma do Beira-Rio comeou em dezembro de 2010, mas ficou paralisada de junho de 2011 a maro de 2012, por problemas tcnicos e financeiros que s foram equacionados, quando o Internacional, dono da arena, firmou um contrato de parceria com a construtora Andrade Gutierrez. Como o projeto inicial havia subestimado as obras necessrias para enquadrar a arena s exigncias da Fifa, o custo inflou. Para cada real colocado pelo clube e pela construtora no estdio, o poder pblico se comprometeu a investir 3,70 reais em melhorias para a cidade. Um trabalho preventivo do Tribunal de Contas do Estado junto aos rgos pblicos cortou 13 milhes de reais do valor total. Esto previstos gastos de mais de 1 bilho de reais na modernizao do aeroporto Salgado Filho e em obras virias. As principais caminham no prazo.

JOS PINHEIRO BORDA (BEIRA-RIO)
Capacidade: 52.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 130 milhes
Final (estimado): 330 milhes
Aumento de 153,8%
ATRASADO 65% construdos

MOBILIDADE URBANA
Custo: 880 milhes de reais
Principal obra: duplicao de avenida de acesso ao estdio
Incio: maro de 2012
Previso de trmino: maro de 2014
Status: 68%

AEROPORTO
custo: 351 milhes de reais
Principal obra: ampliao do terminal de passageiros e de ptios e pistas
Incio: fevereiro de 2013
Previso de trmino: maio de 2014
Status: em fase inicial
Taxa de ocupao em 2010: 166%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 122%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 15.700
Recomendao para 2014: 17.300
Previso: 20.800

CURITIBA
Cidade bem resolvida em matria de mobilidade urbana e sede de um dos raros estdios do pas considerados j modernos, Curitiba entrou na disputa para sediar jogos da Copa em posio de vantagem. Deu tudo errado. As exigncias da Fifa elevaram o custo da reforma do estdio a mais de 200 milhes de reais. Na busca de recursos, o Atltico Paranaense, dono da Arena da Baixada, acabou atrasando todo o cronograma. Com ajuda financeira do governo do estado, a obra comeou em setembro de 2011, mas em junho de 2012, com mais da metade pronta, praticamente paralisou. Demandava mais verbas  que acabaram vindo de um financiamento do BNDES. O Atltico Paranaense tem esperana de concluir a obra dentro do prazo da Fifa. Outros projetos do pacote-Copa no tiveram a mesma sorte  entre eles a ampliao de avenidas centrais da cidade. Por falta de recursos, foram cancelados.

JOAQUIM AMRICO GUIMARES
Capacidade: 42.000 pessoas
Custo (em reais)
Previsto: 185 milhes
Final (estimado): 220 milhes
Aumento de 19%
MUITO ATRASADO 62% construdos

MOBILIDADE URBANA
Custo: 436 milhes de reais
Principal obra: corredor entre o aeroporto e a rodoviria
Incio: junho de 2012
Previso de trmino: setembro de 2013 
Status: 12% construdos

AEROPORTO
Custo: 249 milhes de reais
Principais obras: ampliao do terminal de passageiros e melhorias no acesso virio
Incio: maro de 2013
Previso de trmino: maio de 2014
Status: em fase inicial
Taxa de ocupao em 2010: 96%
Taxa de ocupao prevista para 2014: 105%

HOTELARIA
Nmero atual de leitos: 19.500
Recomendao para 2014: 14.000
Previso: 20.500


8. RELIGIO  EM BUSCA DA ESSNCIA
A Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil aprova um documento pioneiro com propostas de mudanas drsticas em um dos pilares da religio catlica, as parquias.
ADRIANA DIAS LOPES, DE APARECIDA

     O clero brasileiro acaba de tomar uma medida exemplar na Igreja Catlica. Em reunio a portas fechadas ocorrida no ltimo dia 16 durante a 51 Assembleia da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 361 bispos aprovaram um documento com propostas contundentes de mudanas no exerccio do catolicismo e no perfil de um dos pilares mais slidos da religio  as parquias. Intitulado "Comunidade de comunidades: uma nova parquia", o texto sugere alteraes dos mais diferentes aspectos. Do tempo de durao das homilias ao horrio das missas. De como receber bem aqueles que no se encaixam nos sacramentos  maneira como o padre deve evangelizar. Afirma dom Srgio Castriani, arcebispo de Manaus e presidente da comisso que elaborou o tema: "As parquias precisam de uma renovao urgente. Elas devem ser um lugar de acolhida, orientao e ajuda espiritual. Para muitos, no entanto, so vistas apenas como prestadoras de servios religiosos ou um lugar para cumprir preceitos".  
     Das prticas s subjetivas, as questes tratadas pela CNBB tm um fio condutor  a tentativa de a Igreja Catlica voltar a sua essncia. Um dos pontos mais emblemticos refere-se  catequese. Diz o texto que a iniciao crist deve ser autntica, vivida de forma prtica e no restrita a instrues. Outro exemplo  a formao de novas comunidades. Em vez de grandes parquias, pede-se o incentivo  constituio de pequenos grupos, nos quais as pessoas criem vnculos e se sintam estimuladas a exercitar a sua f. "O documento foi todo inspirado nos moldes da evangelizao praticada nos primrdios do cristianismo", declara monsenhor Antonio Lus Catelan, da Comisso Episcopal Pastoral para a Doutrina da F, da CNBB. Pelos relatos bblicos, Jesus e seus apstolos se aproximavam e conquistavam discpulos com uma pregao genuna e calorosa, no contato corpo a corpo, muitas vezes na casa dos fiis. E no por meio de cerimnias burocrticas e glidas ou de padres distantes da realidade das pessoas que frequentam suas igrejas, como ocorre em muitas parquias hoje em dia. Tal corrente de pensamento segue  risca os exemplos e o discurso que o papa Francisco tem mostrado em seu pontificado (veja o quadro ao lado). Seja na abdicao do anel de ouro (Francisco substituiu o tradicional anel de ouro usado pelos pontfices por outro de material mais simples, a prata dourada), seja na forma de transitar pela multido na Praa de So Pedro (Francisco se nega a usar o papamvel com vidro blindado para se aproximar dos fiis, abraando-os e beijando-os), seja em seus discursos. "O sacerdote tem de ser um pastor com cheiro de suas ovelhas", foram as palavras do papa em uma de suas homilias mais contundentes, proferida durante missa realizada para 1600 procos pouco antes da Pscoa. 
     A Igreja h muito exige medidas eficazes de evangelizao. H trinta anos, de acordo com os dados do Censo, 89% da populao brasileira se declarava catlica. Agora, esse ndice  de 65%. O papel da parquia  fundamental na conquista de novos fiis e na manuteno dos j praticantes. "Ela  a principal porta de entrada da religio catlica", diz a irm Maria Eugenia Lloris, do Setor Universidades da CNBB, que participou da elaborao do novo texto. A ateno da Igreja para com o estilo das parquias surgiu no Conclio Vaticano II (1962-1965). Desde ento, o assunto apareceu pelo menos uma dezena de vezes como resultado de reunies do prelado nacional e internacional. O texto da CNBB, no entanto,  o primeiro no mundo a propor questes de forma to concreta e detalhada. O relatrio no se configura como diretriz. Mas, como tudo o que  validado pela CNBB, tem muita fora moral. 
     Em poucas semanas, o documento deve ser distribudo s 12.000 parquias do Brasil, para que seja estudado pelos padres. Durante um ano, o contedo poder receber sugestes. Em maio de 2014, ele ser publicado como documento oficial da Igreja brasileira. Mesmo sem a obrigatoriedade de seguir os ditos da publicao, o trabalho dos procos brasileiros nunca mais ser o mesmo.

AS NOVAS PROPOSTAS
As orientaes dos bispos brasileiros sobre a evangelizao nas parquias

HOMILIA
O que diz o documento: "Especial importncia adquire a homilia, centrada nas leituras da Bblia, proclamada na celebrao e comprometida com a realidade. Ela precisa ser breve e capaz de falar com a linguagem dos homens e das mulheres da cultura atual
Comentrio: A Igreja quer se comunicar de forma mais direta e eficiente com o fiel. Isso implica discursos com contedos que prendam a ateno da plateia, com linguagem clara e envolvente.

PEQUENAS COMUNIDADES
O que diz o documento: "Procurar criar pequenas comunidades a partir de grupos que se renem para viver a sua f (...). A setorizao pode ser estabelecida pela vizinhana ou por afinidades sem delimitao territorial, como grupos de jovens, idosos, casais etc."
Comentrio: A criao de pequenos grupos facilita a aproximao dos fiis e a formao de vnculos entre eles. As comunidades devem se reunir tanto em torno de leituras da Bblia e para oraes quanto para praticar a f, fazer caridade e evangelizar.

CATEQUESE
O que diz o documento: "Para que as comunidades sejam renovadas, a catequese h de ser uma prioridade. Um novo olhar permitir uma nova prtica. Isso implica adotar a metodologia catecumenal"
Comentrio: O catecumenato, do grego "escuta da mensagem", era comum nos primeiros sculos do cristianismo. Aprende-se a partir da experincia da f e da observao da celebrao dos sacramentos, em vez de simplesmente decorar os princpios cristos

NOVAS SITUAES FAMILIARES
O que diz o documento: "De nossas parquias participam pessoas unidas sem o vnculo sacramental, outras esto numa segunda unio, e h aquelas que vivem sozinhas sustentando os filhos (...). Crianas so adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do mesmo sexo que vivem em unio estvel. A Igreja, famlia de Cristo, precisa acolher com amor todos os seus filhos"
Comentrio: A igreja no passar a aceitar outras formaes familiares alm da convencional. Mas todos os fiis devem ser incentivados a conhecera f e o Evangelho. O acolhimento pode contemplar, inclusive, o batismo de filhos de casais homossexuais e de mes solteiras.

ADAPTAO DE HORRIOS
O que diz o documento: Usar a criatividade para atender melhor as pessoas que vivem em diferentes ritmos da vida diria. Adaptar-se aos horrios do movimento urbano: missas ao meio-dia, atendimento do padre  noite, catequese em horrios alternativos
Comentrio: As igrejas devem criar alternativas para favorecer a chegada e o envolvimento do fiel. Isso implica mudanas na vida prtica, como as citadas acima.

O ESTILO DE FRANCISCO
     Em menos de dois meses no Trono de Pedro, o papa Francisco mostrou que seu pontificado ser caracterizado por qualidades muito importantes para um rebanho ameaado pelo descrdito moral tomado pelo Vaticano nos ltimos anos. Afora o comportamento pastoral, Francisco esbanjou atitudes marcadas por austeridade e transparncia. Um claro (e extremamente corajoso) exemplo refere-se aos recentes cortes de gastos da Santa S. Depois de acabar com o bnus de cerca de 1500 euros tradicionalmente conferido aos 4000 funcionrios do Vaticano pelo trabalho adicional realizado durante a escolha de um novo papa, Francisco vetou o dinheiro extra dos cinco cardeais pertencentes  "Comisso de Vigilncia" do Instituto para as Obras de Religio (IOR), o banco central do Vaticano. Os prelados, incluindo o brasileiro Odilo Scherer, arcebispo de So Paulo, e o secretrio de Estado, Tarcsio Bertone, recebiam um extra mensal de cerca de 2000 euros a cada ms, alm do salrio de 5000 euros dos cardeais que trabalham na Santa S. 
     Outra deciso surpreendente do papa Francisco foi a criao de uma comisso de cardeais para aconselh-lo no governo da Igreja. Na verdade, os prelados foram designados para estudar um projeto de reforma na Cria Romana, o aparato burocrtico do Vaticano. So oito cardeais escolhidos a dedo procedentes de cinco continentes. E aqui cabe uma observao. O hondurenho Oscar Rodrguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa. foi nomeado coordenador do grupo. Maradiaga, um dos grandes articuladores da eleio de Francisco ao papado, tem uma postura social da Igreja e  conhecido por suas posies radicais ao criticar abertamente a corrupo e a dvida externa dos pases latino-americanos. Francisco pediu aos cardeais um projeto de reviso da Constituio Apostlica, de 1988, que regulamenta a composio da Cria. Certamente, as mudanas drsticas esto apenas comeando.


9. HISTRIA  SURPRESAS DO PASSADO
Um valioso conjunto de documentos resguardados pela Unesco e agora em exposio no Rio de Janeiro ajuda a derrubar mitos, recontando episdios que fizeram a histria do Brasil.
MARCELO BORTOLOTI

     Quem tiver flego para se debruar sobre os onze volumes dos Autos da Devassa, como  chamado o processo que condenou os inconfidentes mineiros em 1792, vai deparar com uma imagem de Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, bem diferente da que se aprende na escola. Nos livros de histria, Tiradentes  descrito como um simples alferes (patente militar equivalente hoje  de segundo-tenente). O rol de bens que consta nos autos, no entanto,  o de um homem rico e influente, grande proprietrio de terras que emprestava dinheiro a juros e tinha autorizao para exercer a minerao em diversos lotes de terra em Minas Gerais  evidncia inconteste de sua proximidade com o poder. Da lista consta uma fazenda no interior de Minas, de 50 quilmetros quadrados, com casas e senzalas. "Tiradentes teve uma pena to severa no por ser pobre, como muitos afirmam, mas porque foi o nico que confessou o crime. E a legislao portuguesa era inclemente para com os rus confessos", diz o historiador Andr Figueiredo Rodrigues. Como os Autos da Devassa, milhares de papis e fotos sobre momentos decisivos da histria do Brasil repousam, bem guardados e pouco divulgados, em centros de pesquisa at ento restritos a especialistas  um celeiro de informaes surpreendentes sobre um passado muitas vezes engessado em mitos. Parte desse material est em exibio no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e tem em comum o selo do programa Memria do Mundo, da Unesco, dedicado a preservar acervos de grande valor histrico. 
     A coleo de documentos, que se inicia no perodo escravocrata, inclui de manuscritos da Guerra do Paraguai a mapas centenrios e relatrios recentes da ditadura militar. Uma das preciosidades  o conjunto das nicas fotos existentes da Guerra de Canudos, feitas em 1897 pelo baiano Flavio de Barros e arquivadas no Museu da Repblica, no Rio: um exame detalhado comprova que o arraial encravado no serto da Bahia, onde os seguidores de Antnio Conselheiro se rebelaram contra o governo federal no fim do sculo XIX, no era a vila de miserveis e fanticos que se costuma descrever. Na poca da guerra,  Canudos abrigava a segunda maior populao do estado, tinha criao de gado, fbrica de rapadura e vendia couro de bode e ovelha at para fora do pas. Em uma das fotos, em que um canudense preso posa ao lado de soldados do Exrcito, fica evidente que ele est mais bem alimentado e vestido do que os militares com seu uniforme em farrapos. "Ao contrrio do que se diz, durante a maior parte da guerra os moradores no passavam fome em Canudos e estavam bem preparados para combater no serto", refora o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de um livro sobre a revolta. As roupas de couro dos jagunos, fabricadas no prprio arraial, alm de mais resistentes, tinham uma cor acinzentada que ajudava a camufl-los na paisagem. Do outro lado, o uniforme dos soldados destoava pelas cores chamativas, o que fazia deles alvos fceis. A sola das botinas se despregava com pouco tempo de caminhada e os fuzis ficavam danificados com a exposio ao sol. O Exrcito voltou derrotado de trs expedies militares e s conseguiu invadir Canudos com o uso de artilharia pesada. 
     Sobre outro episdio determinante da histria do Brasil, a Guerra do Paraguai (1864-1870), o enorme acervo guardado no Arquivo do Exrcito, tambm no Rio, confirma que durante o conflito, do qual o Brasil voltou vitorioso, doenas como varola, clera e febre amarela fizeram muito mais vtimas do que os combates: em um nico hospital de campanha, entre 1867 e 1869, os soldados que morreram de clera e diarreia somaram o dobro dos mortos em decorrncia de ferimentos de batalha. "O dado mostra a falta de organizao do Exrcito e o total desconhecimento das condies de higiene na rea de combate, aspectos decisivos para conduzir uma guerra", diz Jorge Prata, doutor em histria pela Universidade de So Paulo. Outro arquivo inscrito no programa da Unesco rene os nicos registros sistemticos de uma prtica cruel e pouco divulgada: o abandono do corpo de escravos mortos em portas de igreja, praias e at pelas ruas das cidades. Nos anos de 1835 e 1836, conforme registros preservados na Santa Casa da Misericrdia da Bahia, metade dos enterros de escravos em Salvador foi de corpos que a prpria irmandade encontrou largados na rua. 
     O conjunto  permeado ainda de curiosidades histricas at hoje circunscritas ao pequeno crculo de pesquisadores que se deteve sobre to vasto material. Uma delas diz respeito  Fora Expedicionria Brasileira, que lutou na Itlia durante a II Guerra Mundial, captulo muito bem documentado em um acervo tambm sob a guarda do Arquivo do Exrcito. Os papis permitem saber, por exemplo, quais objetos os 465 soldados carregavam no bolso ao perder a vida em meio  batalha: 144 levavam dinheiro, 116 tinham fotografias da famlia e um tero portava algum artigo religioso, como crucifixos, imagens de santo ou recortes com oraes. S em derramar luz sobre esses documentos, a exposio do Arquivo Nacional j presta um servio de valor inestimvel: apontar ferramentas e caminhos para um reexame do passado. A, quem sabe, os acontecimentos que fizeram a histria do Brasil passem a ser contados com todas as suas nuances  de fato, como aconteceram.

